quarta-feira, 5 de setembro de 2012

(2012/676) Do som, do sentido e do sensível - da linguagem como coisa do corpo


1. Primeiro foi o ar. Sempre foi o ar, desde o primeiro de nós, entrando e saindo de nós, e tanto, e tão intensamente, e tão marcantemente nosso que virou mito um dia, mais tarde, depois: ruah, ruah, ruah... Somos de terra, da terra, mas é o ar que nos põe de pé...

2. Depois foram os fonemas. O cérebro de três meses pós-útero lida com eles - os fonemas. Não, ele não tem a mínima ideia do que são, do que significam, mas os codifica, um a um, sem que a criança que guarda em seu crânio essa massa espantosa tenha a mínima ideia do que acontece ali e com ela...

3. Então, vem o sentido. Não, senhores, acabaram-se os grunhidos - urros, só de dor, ou de gozo, quando regressamos ao animal que nunca deixamos de ser... Mas eis a era do sentido, do significado que se vincula a esse som: carambola, e eis, todos que a comemos um dia sentimos o seu gosto na boca... E os que nunca a morderam na boca e experimentaram seu sumo se perguntam que gosto terá essa coisa da terra...

4. O som, o fonema e o sentido são mais do que linguagem. Todos, absolutamente tolos os que acham que isso se resume a linguagem, etérea e metafísica fastasmática criatura de nada. Tolos. A linguagem é corpo. Anotem: corpo. Eu digo uva, e sua boca sabe o gosto, a cor, eu digo ventre, e sua mão lembra o veludo, sente a penugem, eu digo coxa, e você sabe do calor que ali se resguarda - e tanto e tão intenso que o coração, agora, já dispara... E tanto sabe, que espera que eu diga a próxima palavra - ventre, coxa, ... -, e eu não digo...

5. Linguagem! Tolos pós-teólogos metafísicos, cuidando tratar-se de filosofia é, ainda, teologia de anjos. Linguagem é corpo - é cérebro, é traqueia, é pulmão, é diafragma, é língua, língua, senhores, língua, senhoras, língua!... E não digo mais nada, que o limite entre a insinuação erótica e o constrangimento rubicundo é tênue...

6. Está pronta a era da magia: o som, a praga, a palavra, o encantamento, o poder e o medo do ar que sai do corpo do outro... Não me olhes com esses olhos - corpo -, não me digas essas palavras - corpo -, não me mate nem me amaldiçoe...

7. É o máximo de seu poder na era do ar... A memória guardará alguma coisa das palavras, mas, eis, cadê as palavras primeiras?, cadê?, onde?, desapareceram - e para sempre...

8. Pois, eis, então, a magia das magias, a sublimidade das sublimidades, a tecnologia das tecnologias - escrever o ar, pôr o ar no barro, na pedra, na cerâmica, na madeira, do papiro, no papel, na tela do computador... Linguagem! Tolos, mil vezes tolos aqueles que acreditam que a linguagem dissolve as coisas - tolos! Não apenas não dissolve - ela mesma é materializada em papel, em celulose, teclada na velocidade da luz e, desde essas coisas pintadas à mão, esses pedaços materiais de ar condensado, esses bocados lítios de significado,nós re-espiramos esse ar, re-inspiramos esse ar, se lemos com o corpo inteiro, ou imaginamos o som delas palavras que voam nesse furacão da boca, reproduzimos seu som - s - e - x - o - e, imediatamente sabemos do que se trata...

9. Magia.

10. Escrever, senhores, é um ato de magia, de corporeidade total, de consumo calórico, de investimento e desgaste de músculos, de nervos, de vida. Cada página escrita são dez mil células mortas de cansaço, três bilhões de neurônios marcados a ferro e fogo, em tempestades elétricas e orgias químicas - e os insensatos a dizer que linguagem é imaterial...

11. Nem se um Exu pintado à mão por Olorun baixasse em mim e falasse por meio de minha boca, nem assim seria metafísica a linguagem - a palavra: seria corpo. Nem que sobre anjos se falem em mil cantigas - é corpo. Nem que de Deus se escreva um tratado - é corpo. Corpo, corpo, corpo - como este que, aqui e agora, consome-se, em transe...

O Martírio do Artista
Augusto dos Anjos

Arte ingrata! E conquanto, em desalento,
A órbita elipsoidal dos olhos lhe arda,
Busca exteriorizar o pensamento
Que em suas fronetais células guarda!

Tarda-lhe a Idéia! A inspiração lhe tarda!
E ei-lo a tremer, rasga o papel, violento,
Como o soldado que rasgou a farda
No desespero do último momento!

Tenta chorar e os olhos sente enxutos!...
E como o paralítico que, á mingua
Da própria voz e na que ardente o lavra

Febre de em vão falar, com os dedos brutos
Para falar, puxa e repuxa a língua,
E não lhe vem á boca uma palavra!




OSVALDO LUIZ RIBEIRO

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